Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



É difícil debater a justiça fiscal em Portugal

Sexta-feira, 23.09.16

 

É difícil debater a justiça fiscal num país que ainda não se habituou a uma cultura democrática de negociação permanente na procura de um equilíbrio, num país em que as vozes que são ouvidas são precisamente as das classes privilegiadas e influentes.

 

Estas vozes elevam-se, transportadas pelo diapasão dos media, face à possibilidade de um imposto sobre o património acima de um determinado valor.

Aqui d'el Rei!, os revolucionários que odeiam os ricos e a propriedade!, este é um preconceito cultural que se mantém e que já não cola à realidade actual.

 

Quando os impostos incidiram sobretudo sobre o trabalho, quando inclusivamente se cortaram salários, as reacções emotivas tinham razão de ser.

Mas não foi isso que vimos acontecer, muitos cidadãos perderam o trabalho e a casa, recorreram à família e à solidariedade da comunidade, refugiaram-se na dignidade do silêncio, fizeram as malas e partiram.

 

Há uma nobreza especial nos cidadãos comuns que não vemos nas actuais elites sociais.

Uma capacidade de resistência na dor e no fracasso, um desejo de colaborar e ajudar quem mais precisa, uma sede de esperança, de se voltar para o futuro, porque não se podem dar ao luxo do queixume e da desistência.

 

Quem vive do salário mínimo, se levanta cedo para apanhar transportes públicos, se movimenta todo o dia para regressar a casa já noite, acham que tem tempo para sequer pensar nas injustiças sociais?

Claro que há preconceitos culturais relativamente aos ricos. Mas também há um fascínio infantil alimentado pelos media.

 

Sempre que se utiliza a palavra "rico" e a palavra "pobre" há um preconceito cultural envolvido. Podemos então falar de qualidade de vida ou ausência dela.

Mas a palavra "pobreza" e a palavra "fome", que desejaríamos datadas no tempo, são necessárias para definir a ausência de bens essenciais para a vida.

 

O desafio é muito claro: uma política económica inteligente, sensata, eficaz, que promova a qualidade de vida dos cidadãos e que não penalize o trabalho, a poupança, o investimento e o crescimento económico.

 

 

 

 

Post publicado n' A Vida na Terra.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:30

1ª lição: aprender a distinguir um jornalista de um psicólogo

Sexta-feira, 16.09.16

 

Há pouco foram os Panama Papers que despertaram a curiosodade dos portugueses. Quem aparecia na lista, em que paraíso fiscal, que voltas o dinheiro tinha dado para lá chegar, esses pormenores dignos de um filme de espionagem e conspirações. Estamos a falar de jornalismo, de informação de interesse público.

Agora anuncia-se um livro de um jornalista sobre a vida privada dos políticos, para não dizer explicitamente a vida sexual. Os portugueses vão correr para as livrarias, tal como os ingleses devoram os seus tablóides. Estamos a falar de entretenimento que se baseia no voyeurismo. 

 

Os políticos americanos têm fama mundial pelos seus escândalos sexuais. E na América é tudo dissecado, obrigam o político a explicar-se em público, ou seja, a mentir: Não fiz sexo com aquela senhora...

Os políticos ingleses também são famosos pelos seus deslizes sexuais, isso até inspira muitas séries televisivas.

Os políticos franceses, esses têm um savoir faire que transforma os escândalos em simples indiscrições.

Mas em Portugal?! É estranho imaginar os políticos portugueses com uma vida sexual suficientemente interessante para ir parar ao livro de José António Saraiva, com o título pomposo Eu e os políticos e ainda por cima apresentado pelo anterior PM...

 

Se o livro se baseia nas confidências dos políticos ao jornalista, não se podem agora queixar de ver essa informação no livro. Quem é que se lembra de dar informações sobre aventuras secretas a jornalistas?

Não viram filmes suficientes sobre a tentação jornalística de divulgar informação privilegiada e quanto mais picante melhor? Esse tema até deu excelentes comédias americanas.

 

Portugal está a tornar-se num país bem animado. Subitamente este Verão tudo quer falar sobre a sua vida privada. Parecem picados pelo soro da verdade, e haja ouvintes com paciência para os ouvir.

 

Serão estas confidências que nos revelam o seu carácter, os seus valores, o seu sentido de responsabilidade, a sua competência e imparcialidade?

Para já, a única informação útil a registar é que não conseguem distinguir um jornalista de um psicólogo.

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 20:11

Viagem no tempo com o Inspector George Gently

Sábado, 03.09.16

 

Cá volto eu às séries inglesas. Novamente com um inspector da polícia. E desta vez nos anos 60.

Como criança nos anos 60, assimilei apenas o lado bom dessa década, a música e a roupa. A alegria e a frescura de todos os inícios, é o que me lembram os coloridos anos 60.

O inspector George Gently vem-nos lembrar o lado sombrio dessa década. A situação das mulheres, por exemplo, a vulnerabilidade das crianças, a violência juvenil, as drogas, a desconfiança entre comunidades, o racismo. 

 

Gently, tal como o seu nome, é uma personagem amável e compassiva com os agredidos e corajoso e implacável com os agressores. É um homem exigente consigo próprio e com os outros, um homem de valores que procura transmitir ao seu aprendiz, o irreverente John Bacchus. Será através do boxe que pratica desde o tempo de jovem soldado, que demonstra ao jovem o respeito por si próprio e pelos outros, mesmo os adversários. A resposta à provocação de que, com a sua idade, se deveria dedicar à pesca, será pô-lo, gentilmente, K.O.

 

A personagem Gently surge-nos com um modelo de adulto responsável, que conheceu o sofrimento na guerra e na vida pessoal com a morte da mulher, mas que não desarma. Tem um propósito que abraça de forma tranquila, sem dramatismo. É com essa gentileza que lida com o lado B da vida.

 

Mas a série não me impressiona apenas pelas personagens e pelo guião. O cenário e os adereços estão perfeitos. A atmosfera da época. E a música é fabulosa. 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:05








comentários recentes



links

coisas à mão de semear

coisas prioritárias

coisas mesmo essenciais

outras coisas essenciais

coisas em viagem


subscrever feeds